*Texto escrito pela convidada especial Luziane Martins

Dentro da correria do dia a dia, da necessidade de produzir, vencer, se destacar no mercado, vencer crises e concorrências, acompanhar o mundo financeiro, a alta e a queda das moedas e etc. (quanta coisa) poderia ser natural não perceber o ser humano que opera tudo isso. Dentro de algumas empresas é normal, mas tem que ser assim?

O lutar pelo pão diário não é tarefa fácil, mas não deveríamos nos esquecer e nem deixar que se esqueçam de quem está no centro dessa luta: um ser humano normal, como todos os outros – que sonha, tem suas dores e tragédias pessoais.

Em meu primeiro emprego eu fui acolhida do jeito que deve ser. Minha líder era uma bióloga recém-formada com uma boa bagagem de vida adquirida em viagens e cursos. Ela teve a sensibilidade de perceber que eu tinha vontade de trabalhar, mas não sabia como e por onde começar, nem de que forma desenvolver as habilidades que eu precisava.

Eu trabalhava em um laboratório de clonagem de mudas de cana de açúcar. Eu tinha 16 anos e estávamos na década de 90. Eu não sabia muito sobre laboratórios, muito menos de clonagem. Eu tinha a obrigação de saber?

Nos horários vagos minha ex-chefe acolhia até necessidades pessoais da equipe, como ajudar nos estudos – éramos aprendizes, cursávamos o Ensino Médio e eu tinha muita dificuldade em matemática.

A minha liderança tinha uma condição social bem diferente da nossa. Ela teve acesso a boas escolas, viagens, cursos de inglês, tinha carro e uma família estruturada. Mesmo assim ela se dividia conosco, no sentido de compartilhar o saber que ela adquiriu, de graça, com o único intuito de ampliar nossa visão de mundo. Deu certo. Ela despertou em mim a vontade de seguir.

Com dificuldades financeiras, o afeto novamente se fez presente em meu caminho. Um antigo professor, agora diretor de uma escola, me falou sobre um programa de bolsas e me explicou como eu poderia ser contemplada com uma – assim comecei minha Licenciatura em Letras (não gosto muito de gramática, mas a literatura me encanta).

Logo no inicio comecei a estagiar em um projeto social. Acho que trabalhar com pessoas em vulnerabilidade social deveria ser estágio obrigatório em todas as graduações.

Nesses espaços você convive com o melhor do ser humano – pois as crianças são boas, apesar das dificuldades – e o pior – muitas são filhas do abandono familiar e institucional. Dói na alma ver que elas têm fome de afeto e de carinho, além da fome de alimentos. Dói ver que no frio elas vão chegar para as atividades com chinelinho nos pés enquanto você está com um par de tênis com meias ou botas. Como não amadurecer seu lado humano dentro de um contexto assim? Você se apequena, seu egoísmo perde forças.

Eu fui para meu próximo emprego: Conselho Tutelar. Nesta função as partes ruins do ser humano ganham destaque, mas também existe aprendizado. Antes de completar o ciclo Conselho Tutelar, já formada, fui convidada a integrar a equipe de uma instituição que encaminha adolescentes para o mercado de trabalho e nesta área.

Quanto mais próxima da área corporativa, mais eu via muita coisa boa, inclusive bons comportamentos dos alunos do primeiro projeto social que citei. Quando há uma política de integração em que se inclui além de conceitos educacionais, cuidado pessoal e afeto, eles tendem a se desenvolver e nos surpreendem.

No Conselho Tutelar eu vi a descrença da sociedade em relação ao jovem. Lá dentro praticamente todo adolescente é rotulado como estagiário de bandido. Dentro daquele universo você não vê – ou não te deixam ver – o adolescente que sonha, que tem objetivos, que quer conquistar boas notas e se destacar nas empresas.

Nessa instituição temos várias vertentes. O adolescente é acompanhado por um ano antes de ser encaminhado. Essa fase é importante para a construção dos valores.

Eu trabalho com adolescentes carentes, portanto, muitos têm problemas de aprendizagem, não tem acesso a computadores e não possuem conhecimentos básicos em informática como enviar um e-mail com anexo.

Eles não sabem como atender a um telefonema formal, tem pouca leitura e a cultura é artigo de luxo. Depois de serem encaminhados, continuam os processos teórico e prático. Ouvimos as reclamações em que imperam relatos sobre a falta de respeito e compreensão dos líderes com seus funcionários. A falta de paciência e empatia no momento de acolher, ensinar e direcionar são os exemplos que mais são citados. Burros, lerdos e inúteis – essas são as palavras mais ouvidas.

O dia a dia nas empresas é cheio de problemas a serem resolvidos, desafios para serem vencidos e nem sempre o ser humano é percebido dentro desse processo.

Todos os itens citados refletem no treinamento dos aprendizes dentro das corporações e devem ser assim em várias instituições que trabalham com aprendizagem. Cito os estagiários e aprendizes não porque é o público com o qual eu trabalho, mas, por obviamente ser o setor que considero menos preparado para levar os “tapas” que a rotina das empresas – quando não pautadas por uma política de acolhimento – oferecem aos profissionais iniciantes.

Um acolhimento embasado na falta de respeito pode desmotivar, adoecer e até piorar situações que um líder desconhece – muitas pessoas que passam por nossas vidas e pelas empresas carregam consigo marcas indeléveis.

Será que como seres humanos temos o direito de aumentar essas feridas? Todos nós também não temos nossas dores, lutas e cicatrizes? Se estamos na mesma condição enquanto pessoas, se somos feitos do mesmo material, em qual momento da vida um chefe que utiliza da impaciência, do sarcasmo e da intolerância se vê em condição de superioridade? A superioridade não existe.

Não temos controle de nada nesta vida, portanto, nos acolhermos enquanto humanos deveria ser tão natural quanto termos gratuitamente ar para respirar. O ar para respirarmos – necessidade básica do ser humano – é distribuído de forma igual para todos. Seria esse um sinal de que para a natureza os homens são colocados em uma mesma escala de importância?

Trabalhemos com nossos corações. É bom para nós – que muitas vezes não temos o peso da dor do outro registrado no nosso interior – e é bom para o outro, que não precisa acumular mais mágoas. Com certeza é bom para o desenvolvimento da empresa também.

*Luziane Martins é professora de cursos de direitos sociais, cidadania, trabalho em equipe e liderança.

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