“Para Vanessa Guimarães daqui da Austrália”. Esse é o título do e-mail que eu recebi da Daphne Fernandez.

Uma brasileira que mora na Austrália e acompanha o meu trabalho através do site me escreveu para agradecer o convite que postei do lançamento do livro Entre Trilhas e Caminhos no Brasil.

Nada me deixa mais feliz do que ver o meu trabalho inspirando outras pessoas. Todos nós temos muitas histórias para contar e nossas vidas se cruzam e se entrelaçam o tempo todo.

Eu sempre achei o mundo pequeno e com a Internet percebo que estamos cada vez mais próximos uns dos outros. Independente de onde nascemos, moramos ou estamos, conseguimos nos comunicar de forma eficaz e fazer amizades.

Eu fiz um convite especial: pedi para a Daphne Fernandez escrever a sua história de vida e sobre as dificuldades que enfrentou em um país que possui uma cultura tão diferente da brasileira. Ela aceitou o desafio e escreveu uma carta inspiradora que agora eu compartilho com vocês leitores:

“Querida Vanessa, espero que tudo esteja bem com você. Como prometido, eu começarei a escrever sobre a minha vida profissional e esteja a vontade de modificar porque eu tenho certeza de que escrevi demais da conta!

Eu nasci no Rio de Janeiro em 1964 no hospital de Santa Lucia em Botafogo. A minha mãe nasceu no Egito e veio ao Brasil em 1954 devido a motivos políticos e o meu pai nasceu no Rio de Janeiro também. Os meus pais vieram da Inglaterra e da Escócia.

Em 1978 eles resolveram ir embora do Brasil porque achavam que a economia não ia melhorar. Chegamos na Austrália no final de 1978. A população do país é de um pouco mais de 16 milhões de habitantes.

No caminho para a nossa nova moradia, que era um hostel, me lembro como as ruas eram quietas e limpas. Com quase 15 anos de idade eu sentia muita falta de tudo que eu deixei para trás, a saudade era demais! Eu chorei muito nesse período de adaptação em um ambiente que não era tão fácil fazer amizades – os estrangeiros não eram bem recebidos devido ao que chamavam de “white policy”. Os sentimentos que me invadiram foram solidão e isolação. Foi uma batalha para superar.

Eu tive que ser mais forte do que nunca para combater o racismo e mesmo sendo de pele branca, o problema era a dificuldade em falar o idioma de forma fluente. Como eu era jovem, dentro de poucos anos o meu inglês melhorou muito e a comunicação com as outras pessoas também.

Acredito que a ignorância dos australianos a respeito dos estrangeiros também mudou muito e agora aceitam os estrangeiros melhor na comunidade.

Eu aprendi muitas coisas em todos esses anos que estou aqui e conheço australianos maravilhosos. Não se deve generalizar a maneira de como eles pensam. Ainda existe racismo e acho que nunca acabará, mas temos que viver com isso, infelizmente.

Eu não tinha nem 15 anos quando comecei o meu primeiro trabalho cuidando de uma menina de quatro anos por duas horas depois da escola. Aqui na Austrália é muito comum trabalhar depois da escola para ganhar um dinheirinho. Isso não é sinal de pobreza, porque muitos jovens fazem isso até hoje e com o dinheiro que ganham, compram as suas coisas em vez de pedir dinheiro aos pais. Ainda tem muitos jovens que vão viver sozinhos quando completam 18 anos – o governo dá um dinheiro para todos os desempregados de uma forma indefinida.

Eu já fiz vários biscates, trabalhei em McDonald’s e até lavei pratos em um restaurante enquanto estudava durante o dia. Quando eu acabei o ginásio – que dura dos 12 até os 18 anos – estudei em uma escola técnica para me formar como Técnica de Laboratório. Nesse período eu trabalhava como garçonete durante o dia e nos fins de semana.

Eu comecei a trabalhar na minha profissão com 22 anos (casei com um espanhol aos 23 anos) e ainda estou trabalhando – agora com 55 anos – em uma escola secundária na área de Ciências suportando os professores preparando classes práticas.

Eu já trabalhei na Foseco (Controle de Qualidade), na Procter and Gamble (Research and Development) e depois disso tive um descanso para ter a minha primeira filha em 1991 – voltando a trabalhar depois dos nove meses. Em 1994 eu tive gêmeas e em 1995 eu tive outra filha.

As minhas filhas e o meu marido são o meu mundo! Viver aqui na Austrália me ensinou como ser uma pessoa melhor, a ter uma mente mais aberta para entender que nós somos diferentes uns dos outros, a ter mais compaixão, a ter mais tolerância e de pensar antes de julgar os outros.

Um abraço Vanessa e até breve.

Daphne Fernandez”

Anúncios